Como amar os inimigos e orar por quem nos persegue, já que é uma exigência de Jesus?


Jesus começa dizendo: “Vós sabeis que foi dito: ‘Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo, mas eu vos digo: Amai vossos inimigos e rezai pelos que vos perseguem”. (Mateus 5,43). O que Jesus quis dizer com isso? É possivel amar os inimigos?

 

Os dois textos do Evangelho que falam mais claramente do amor aos inimigos se encontram em Mateus e em Lucas. O evangelho de Mateus é dirigido para uma comunidade judaico-cristã: e, por isso, faz referências explícitas à antiga Lei de Moisés, mostrando a novidade da lei cristã. Então, nesse texto, Jesus começa dizendo: “Vós sabeis que foi dito: ‘Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo’” (Mateus 5,43). Logo depois, aparece a exigência da Nova Lei do cristão: “Mas eu vos digo: Amai vossos inimigos e rezai pelos que vos perseguem”.

Em Lucas, que escreve para comunidades de origem pagã, não aparece a referência à antiga lei de Moisés, mas se encontram claramente as palavras de Jesus sobre o amor aos inimigos. Podemos acrescentar um dado interessante neste evangelista, que mais ressalta a atitude de misericórdia de Jesus. Ele nos se limita a pedir o amor aos inimigos, mas, na cruz, Ele nos dá o exemplo, perdoando aqueles que estão crucificando-O, com estas palavras: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23,34).

 

 

Nesses textos, podemos perceber que o primeiro pedido de Jesus não se refere nem à oração nem à ação dos cristãos. Jesus quer de nós, antes de tudo, um coração novo, uma reforma interior. Essa predisposição é o amor. E o
amor é indicado em toda a sua extensão: “Amai vossos inimigos”. Isso significa que o amor verdadeiro não tem limites. A sua luz deve aparecer em todos os cantos e o seu ardor deve esquentar tudo. E essa predisposição é sincera só se levar para a ação: “Fazei o bem aos que vos odeiam” (Lucas 6,27). Não se responde ao ódio com o ódio. O ódio vai ser vencido pelo amor. O bem tem de ser mais forte do que o mal.

Desejar o bem aos inimigos

Essa predisposição só é verdadeira quando se deseja o bem também ao inimigo: “Bendizei os que vos maldizem”. O amor verdadeiro não coloca o destino dos homens maus em mãos duras, mas nas boas mãos de Deus. Por que não pensar, neste momento, no martírio de Santo Estêvão? Ele morreu rezando pelos seus assassinos. E lá estava presente um perseguidor dos cristãos: o futuro apóstolo Paulo. A “bênção” de Deus implorada pelo mártir Estêvão, tornou-se “graça” para Paulo.

“Rezai pelos que vos caluniam” (Lc 6,28): dessa maneira, o homem se torna interiormente livre colocando em Deus toda dificuldade pela qual ele passa. Agora, como vai agir aquele que ama os inimigos? O evangelho indica uma atitude positiva e uma atitude negativa. Do ponto de vista positivo, quem ama está disposto a suportar: “A quem
te bater numa face, apresenta-lhe também a outra. A quem tirar o manto, não o impeças de levar também a túnica” (Lc 6,29). Assim, o cristão responde numa maneira totalmente diferente de como comumente acontece.

 

 

Do ponto de vista negativo, o cristão não procura o interesse. Não faz o bem com a intenção de ser igualmente retribuído: “Se amais os que vos amam, que merecimento tereis? Também os pecadores amam os que os amam” (Lc
6,32). Mas qual é a motivação para se comportar assim? A motivação é somente Deus: “Sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom para com os ingratos e para com os maus” (Lc 6,35). E Mateus traz um exemplo desta atitude de bondade de Deus para com todos: “Vosso Pai celeste faz nascer o sol para os maus e para os bons; e faz cair a chuva sobre os justos e os injustos” (Mt 5,45). Nesse sentido, Deus aparece como motor da nossa vida. Quem nasceu de Deus possui em si a vida de Deus, com aquela riqueza que só provém d’Ele.

A melhor resposta que podemos dar à saúde da nossa alma e ao nosso coração é o amor.

O amor é o remédio e o bálsamo os quais precisamos para sermos pessoas plenamente saudáveis, porque a saúde começa na alma, no espírito. Se cultivarmos o ódio, o rancor, o ressentimento e a raiva, podemos ter a certeza que vamos acumular dentro de nós, muitos males para a nossa saúde psíquica, psicológica, espiritual e para a nossa própria saúde física.

Por isso, o mestre Jesus, o médico Jesus, nos dá a receita do amor e Ele é muito direto: “Amai os vossos inimigos”, e podemos até dizer que não temos inimigos, mas há pessoas que nos consideram inimigos e há, também, pessoas que não nos querem bem; há aquelas que nos machucaram e nos fizeram mal, ou que ainda fazem mal a nós.

 

 

Nós temos uma resposta na fé para dar a elas. Essa resposta é o amor, mas humanamente, nós não conseguimos amar “só” com a nossa própria força, não conseguimos querer bem a quem nos fez o mal, ou querer bem a quem não nos quer bem. Então, na força da oração precisamos colocar como atitude de oração aquelas pessoas que nós não queremos bem, mas não é simplesmente fazer uma prece “abençoai aquele meu irmão e aquela pessoa que não me quer bem”. Não! É preciso entrar no combate da oração. Do contrário, o nosso amor se esvazia, torna-se pobre e enfraquecido, se não for bombardeado pelo poder e pela força da oração.

Pode o mundo inteiro virar-se contra nós e não nos querer bem, mas, quando nós amamos e oramos de verdade, nada de mal que fizerem contra nós, terá influência. Porque a oração somada com amor é a melhor resposta; ela transforma e torna-se um escudo. Ela não permite que o mal penetre em nós. A oração cicatriza e remove o mal do nosso coração.

A oração cura os nossos ressentimentos e a nossas mágoas. Não vale a pena ficar remoendo, ter o coração todo “triturado” por aqueles que nos fazem ou falam mal de nós. Nossa resposta é o amor concreto por via da oração.

 

 

Concluo com mais um paralelo entre o evangelista Mateus e o evangelista Lucas: Mateus termina com estas palavras de Jesus: “Sede, portanto, perfeitos, como vosso Pai Celeste” (Mt 5,48). Mas o que significa “ser perfeito”? Podemos encontrar a resposta no texto de Lucas: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Quem quiser ser perfeito deve tornar-se misericordioso.

Deus abençoe você!

Fonte: https://homilia.cancaonova.com/pb/homilia/amai-rezai-e-perdoai-os-nossos-inimigos/