Deus é misericórdia, mas também é Justiça?


Da misericórdia de Deus muito se fala, mas pouco de Sua justiça. Abusa-se da misericórdia divina, para, assim, se continuar numa vida pecaminosa, apenas fazendo um propósito: Mais para o fim da vida farei uma confissão e Deus me perdoará. Mas, e se o fim da vida for amanhã…? O inferno está cheio de bons propósitos, disse um santo. É o próprio demônio que nos engana, incutindo-nos uma falsa idéia de misericórdia para ofendermos ainda mais a Deus e tornarmo-nos indignos de Seu perdão.

Da misericórdia de Deus muito se fala, mas pouco de Sua justiça. Abusa-se da misericórdia divina, para, assim, se continuar numa vida pecaminosa, apenas fazendo um propósito: Mais para o fim da vida farei uma confissão e Deus me perdoará. Mas, e se o fim da vida for amanhã…? O inferno está cheio de bons propósitos, disse um santo. É o próprio demônio que nos engana, incutindo-nos uma falsa idéia de misericórdia para ofendermos ainda mais a Deus e tornarmo-nos indignos de Seu perdão.

Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, Príncipe dos Moralistas, ad- verte-nos a respeito desse grande perigo para a nossa vida espiritual, num ser- mão no qual demonstra que abusar da misericórdia de Deus é desprezar sua bon- dade.

ABUSAR DA MISERICÓRDIA DE DEUS É DESPREZAR SUA BONDADE

Pode ser que haja no meio de vós, meus irmãos, alguém que se encontre com a alma carregada de pecados e que — longe de pensar em se livrar deles pela confi- ssão e penitência — não cessa de cometer novos pecados, se sobrecarregando ainda mais . Este, certamente, abusa da misericórdia divina; pois, a que fim nos- so Deus tão bom deixa que este pecador viva senão para que se converta e, por conseqüência, escape da desgraça de perder a alma?

Ele mereceu as severas censuras que o Apóstolo dirigiu ao povo judeu impeni- tente: “Porventura desprezas as riquezas da bondade, da paciência e da longami- nidade de Deus? Ignoras que Sua bondade te convida à penitência? Mas que na tua dureza e coração impenitente, acumulas para ti um tesouro de ira no dia da ira e da manifestação do justo juízo de Deus” (Rom II, 4-5).Eu quero vos afastar, meus irmãos, desse funesto abuso, e vos preservar da desgraça de cair na morte eterna do inferno. A esse propósito, chamo vossa atenção para a seguinte verda- de: Quando uma alma abusa da misericórdia divina, a misericórdia divina está bem próxima de a abandonar…

MISERICÓRDIA E JUSTIÇA DIVINAS: INFINITAS

Santo Agostinho observa que, para enganar os homens, o demônio emprega ora o desespero, ora a confiança.Após o pecado, o demônio nos mostra o rigor da justiça de Deus para que des- confiemos de Sua misericórdia. Entretanto, an- tes do pecado, o demônio nos coloca diante dos olhos a grande misericórdia de Deus, a fim de que o receio dos castigos, devidos aos pecados, não nos impeça de satisfazer nossas paixões. …Essa misericórdia sobre a qual vós cantais para poder pecar, dizei-me, quem vo-la prometeu? Não Deus, certamente, mas o de- mônio, obstinado em vos perder. Cuidado!, diz São João Crisóstomo, de dar ou- vidos a este monstro infernal que vos promete a misericórdia celeste…“Deus é cheio de misericórdia, eu pecarei e em seguida confessar-me-ei”. Eis aí a ilusão, ou antes, a armadilha que o demônio usa para arrastar tantas almas para o in- ferno! …

Nosso Senhor, aparecendo um dia a Santa Brígida, queixou-Se: “Eu sou justo e misericordioso, mas os pecadores não querem ver senão minha misericórdia” (Ego sum justus et misericors; peccatores tantum misericordem me existimant. – Rev. 1. I. c. 5). “Não duvideis, diz São Basílio, que Deus é mise- ricordioso, mas saibamos que Ele também é justo, e estejamos bem atentos para não considerar apenas uma metade de Deus”. Uma vez que Deus é justo, é im- possível que os ingratos escapem do castigo… Misericórida! Misericórdia! Sim, mas para aquele que teme a Deus, e não para aquele que abusa da paciência di- vina.

Deus perdoa quando caímos muitas vezes no mesmo pecado?

Uma resposta para a dúvida de um leitor da Aleteia

Um leitor nos perguntou, através da página da Aleteia:

Deus perdoa quando caímos muitas vezes no mesmo pecado? Apesar de tentar evitar, eu volto a cair, mesmo sem querer.

Sim, Deus sempre perdoa o pecador arrependido. Se houver verdadeiro arrependimento, não há “limite” para as vezes que podemos receber o perdão através do sacramento da Penitência. Isso não muda quando caímos repetidamente no mesmo tipo de pecado.

É importante, porém, esclarecer melhor algumas coisas.

Primeiramente, não existe pecado “sem querer”.

Sempre existe, no pecado, uma participação da vontade, já que o pecado consiste no ato de consentimento em algo que sabemos que é objetivamente mau.

O que acontece é que o ser humano sofre enorme influência dos hábitos, que, conforme sejam positivos ou negativos, facilitam ou dificultam o comportamento que nos torna plenamente realizados como filhos de Deus chamados a ser santos. Quando os hábitos são moralmente bons, nós os chamamos de virtudes; do contrário, são vícios.

A reiteração do pecado produz o vício, que enfraquece a vontade, inclinando à recorrência do pecado e debilitando a capacidade de resistência a ele. E a nova queda no mesmo pecado reforça esse vício. Trata-se, literalmente, de um “círculo vicioso”.

Mas é possível rompê-lo quando se conta com a graça divina: isto inclui, obviamente, a graça recebida no sacramento da Penitência. É uma luta interior, com seus altos e baixos, mas, quando há vontade firme de aplicar os meios se acaba vencendo. E isto requer tempo.

Todo confessor com um pouco de experiência sabe distinguir entre a falta de propósito de emenda – que torna inválida a confissão – e a previsão de que, muito embora se deseje realmente mudar, pode haver recaídas, inclusive após um curto espaço de tempo. O penitente deve entender isto e mais duas coisas: a primeira é que não é a confissão em si mesma o que promove o perdão dos pecados, e sim a contrição manifestada ao confessá-los; e a segunda é que a contrição não é incompatível com a fraqueza da vontade, produzida pelo vício, nem com o prognóstico desfavorável causado por ele. Aliás, para evitar falsas ilusões e desespero em tais situações, é recomendável ter um confessor fixo que possa realmente nos ajudar a superar o pecado.

E é possível que um vício chegue a anular a vontade?

Sim, pode acontecer. Mas, nesse caso, já estaríamos no campo da patologia e precisaríamos de ajuda médica especializada. É o caso, por exemplo, de doenças como o alcoolismo, a dependência química, o vício na jogatina. Quando as coisas chegam a extremos, o desejo sincero de superar o problema precisa passar pela aceitação dessa ajuda.

Autor: Marcus Moreira Lassance Pimenta
Fonte: Veritatis Splendor

 

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